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terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime


Recebi esse artigo do jornalista niteróiense Fábio Barbosa. Nele, José Claudio Souza Alves dá a sua visão e faz projeções do que estaria por vir após a mega-operação que, em tese, devolveu o Complexo do Alemão a seus moradores. Apesar das previsões de José Claudio não serem das mais otimistas, é sempre bom ouvir opiniões diferentes da maioria, ou mesmo olhar para uma mesma questão com um olhar mais crítico e desconfiado que o habitual. Questionar é sempre válido. Aí vai o texto que recebi por esses dias:

A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime
José Cláudio Souza Alves - 25/11/2010
Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem, representado pelas forças públicas de segurança, e o mal, personificado pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2 consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino, distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de “segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos, facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada, dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônica na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.

Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadan Husein, e depois, viu a farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está ocorrendo?

Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina, expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul, que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos, no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda, porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a relação com o mercado que o sustenta.

A farça da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime? Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos faz esquecer que ela tem outra finalidade e não a hegemonia no controle do mercado do crime no Rio de Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o mercado financeiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro, quando o caveirão e o Bope passarem.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Zerovinteum! Rio de Janeiro...!



“Bombeiros de São Gonçalo confirmam um ônibus pegando fogo na Estrada Santa Isabel, em Santa Isabel.”

“Um veículo foi incêndiado em Vicente de Carvalho, próximo a Igreja do Carmo.”

“Muita atenção. Bope chega, neste momento, na Vila do Cruzeiro. Vários blindados dão apoio a ação.”

“Os oito presos acusados de terem envolvimento nos ataques no Rio foram transferidos para a penitenciária federal de Catanduvas, no Paraná.”

“O Comando Geral da PM convocou os comandantes dos cinco batalhões do Sul Fluminense para enviarem policiais para a capital.”




Somewhere high in the desert near a curtain of a blue
the sane man skirts under the wind
but down here in the city of the lime lights
the fans of santa ana are witherin'
and you can’t deny that living is easy
if you never look behind the scenery
it's showtime for drag lines
and bedlam is dreamin' of rain

when the hills of los angeles are burnin'
palm trees are candles in the murder wind
so many lives on the breeze
even the stars are ill at ease
and los angeles is burnin'

this is not a test
of the emergency broadcast system
when malibu fires and radio towers
conspire to dance again
and I cannot believe the media Mecca
they're only trying to battle reality, catch it on prime time, story at nine
the whole world is goin' insane


when the hills of los angeles are burnin'
palm trees are candles in the murder wind
so many lives are on the breeze
even the stars are ill at ease
and los angeles is burnin'

a clock that reads
the end of days
shotgun roundabouts are bending in the haze

more a question than a curse
how could hell be any worse?

the flames are startin'
the cameras runnin'
so take warnin'


when the hills of los angeles are burnin
palm trees are candles in the murder wind
so many lives are on the breeze
even the stars are ill at ease
and los angeles is burnin'

Los Angeles is Burning (Bad Religion)




foto: Ag. RBS/Folhapress

sábado, 23 de outubro de 2010

Sem pretensões


Este sou eu, ainda o mesmo. Igual, chato, redundante, boçal. Tudo sempre igual: vícios de linguagem, deuses da chuva, dias de sol. Ainda penso nas mesmas coisas e ouço as mesmas músicas. Guio-me perdido pelas mesmas ruas e caminho sempre em direção aos mesmos lugares. Pra ver e viver os mesmos rostos, ouvir as mesmas vozes, duvidar das mesmas verdades e desprezar os mesmos sorrisos. Pra incomodar do mesmo jeito e sair de cena com a mesma discrição. Descrevendo pra mim mesmo os mesmos atos com seus mesmos finais, iguais. Enfim, este sou mesmo eu. Sem pretensões. De fato, sou eu...

Este sou eu: Ainda preso aos mesmos lugares, sentenças, medos e modos. De novo igual, estagnado, monótono, tão patético quanto meus iguais. Tudo que não quis ser. Este sou eu, hipócrita comigo mesmo e com minhas virtudes. Separando coisas. Calculando o incalculável. Afeiçoado a meus defeitos e dependente de minhas falhas... Eu, de novo. Como sempre: me plagiando, copiando, reaproveitando os restos, me martirizando e gozando de fracassos. Este sou eu, na mesma esquina. No fim do caminho e com a mesma canção. Sou eu mesmo? Ainda? De novo? Ok, ‘se não fosse desse jeito sabe lá...’, né?

Rafael A.